domingo, 23 de outubro de 2011

BRILHO NO OLHAR


Planto estrelas em teu olhar
Para colher
Uma constelação em teu sorriso

Anseio por sentir
O calor do sol no teu abraço
Aquecendo o inverno
Em que se transformam meus dias
Quando a tua primavera
Faz-se ausente

Permita-me deslizar
No arco-íris do teu céu
E encontrarei no final dele,
O ouro do teu carinho

Faz do teu colo o meu ninho
Planta em meu coração
As sementes do teu amor
E as regarei todos os dias
Para que no próximo outono
Possas colher
O fogo do verão em que me torno
Quando vejo despontar
A primeira estrela nos teus olhos

Má Antunes, 21/10/2011.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ESTRANHO SORRISO



A falência da empresa; a dissolução do casamento; a briga pela guarda dos filhos; a morte do melhor amigo; os péssimos resultados dos exames de rotina. Um conjunto de fatores que agregados fazia-lhe perder o gosto pela vida. Foi assim que acordou naquela manhã, sentindo-se num buraco negro. Que motivos tinha ainda para continuar? Era com essa pergunta na cabeça que saiu de casa pela manhã, andando pelas ruas sem rumo e sem saber o que fazer.
Parou na esquina aguardando que abrisse o sinal de pedestres.
E se atravessasse agora? Passou essa questão repentinamente em sua cabeça. Mas o trânsito estava tão tranquilo que os carros teriam tempo suficiente de frear sem conseguir dar cabo da sua vida. Iria apenas arrumar mais um problema: quebrar-se todo e ainda não teria dinheiro para arcar com os custos do hospital. Que droga, não tinha competência nem para um suicídio decente!
Seu olhar perdia-se ao longo da faixa de pedestres até que encontrou-se com um outro olhar. Bem ali, do doutro lado da rua, estava uma senhora de seus 80 anos, cabelos brancos, pele alva, olhos azuis como o céu. Parecia um anjo na terra. E de repente ela lhe abriu um largo sorriso, desses que iluminam um quarteirão numa noite escura.
Olhou atentamente, pois achou que tratava-se de alguma conhecida. Mas puxou pela memória e aquele rosto não lhe parecia nada familiar. Será que era alguém que o conhecera ainda pequenino? Realmente não se lembrava.
O sinal abriu para os pedestres, então começou a travessia sem tirar os olhos daquela mulher (e ela dele). E ela continuava a lhe sorrir.
Chegava cada vez mais próximo, mas seu semblante não lembrava ninguém. Agora tinha certeza, nunca tinha visto aquele rosto antes.
Ao passar por ela sentiu seus pulmões encherem-se de ar como se um anjo tivesse lhe soprado à boca. Aquilo só podia ser um anjo, não tinha outra explicação. Sentia agora seu corpo mais forte, mais ereto, tinha até vontade de sorrir. Chegou ao outro lado da rua como se tivesse atravessado a ponte para uma nova vida. Olhou para trás para pelo menos retribuir o sorriso, mas o anjo tinha desaparecido na multidão.

Má Antunes, 17/10/2011.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

OBITUÁRIO


Nas páginas da minha solidão
Teu nome em letras garrafais
Anunciam
O jazer de um amor ferido.

Má Antunes, 05/10/2011

sábado, 27 de agosto de 2011

PERDAS E DANOS

 


O medo de perder
É o medo
De não ter
O que não se tem

É o medo
De encontrar o frio
No vazio
Das palavras mortas

De olhar atrás da porta
E não ver a rota
Do reencontro

Medo
De voltar
Ao mesmo ponto

O medo de perder
É o medo
De puxar a corda
E encontrar na ponta
Um nó desfeito

De abrir o peito
E encontrar um câncer
Que não tem mais jeito

Abrir os olhos
E perceber
Que nada é perfeito

O medo de perder
É o medo de sonhar
E acordar
De um pesadelo


É o medo que se tem
De não atender
O próprio apelo

De partir migalhas
E ter que reconhecer
A própria falha

O medo de perder
É o medo que se tem
De perder a fé

Olhar no espelho
E não saber mais
Quem se é.

Má Antunes, 25/08/2011.



terça-feira, 23 de agosto de 2011

A ÚLTIMA CHANCE



        Ele foi se aproximando de mansinho, pé-ante-pé, com o intuito de não acordá-la.
        Deslizou suavemente a mão em seu rosto. Uma pele alva, ávida, macia e aveludada com a pétala de uma flor (como sempre imaginou).
        Tinha uma expressão tranquila e serena de quem dormia um sono profundo. Não queria acordá-la, apenar realizar este seu último desejo de tocá-la.
     Beijou levemente seus lábios subitamente cianóticos. Um beijo frio, árido da indiferença que sentia por ele.
Ela sempre o rejeitou. Dizia sentir nojo dele. Por isso tinha que aproveitar aquele momento único em que ela não reagiria. Dormia um sono profundo.
Apanhou uma flor que estava em seu redor e depositou em seus cabelos longos e negros. Mas era ela quem enfeitava a flor. Tinha uma beleza rara que dispensava qualquer adereço.
Ficou horas observando aquela imagem como se quisesse guardá-la para sempre em sua memória. A amaria para sempre mesmo ela rejeitando esse amor. A amaria para sempre mesmo sabendo que agora esse amor não seria mais possível.
Após deixar uma lágrima se projetar de seus olhos sobre o rosto dela, escorregando lentamente até se perder em sua nuca, cobriu-a com o véu liberando o corpo para que o caixão fosse fechado e dessem prosseguimento ao enterro.
E quando a imagem dele sumia para sempre no campo coberto pela neblina ela levantou-se, dando um longo suspiro de alívio por ter finalmente conseguido livrar-se dessa obsessão.

Má Antunes, 22/08/2011.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

FRAGMENTOS

 


Não procure em mim
A pureza de um anjo
Apenas me procure

Não procure em mim
A beleza das flores
Apenas me procure

Não procure em mim
A serenidade da noite
Apenas me procure

Não procure em mim
O toque suave da brisa
Apenas me procure

Não procure em mim
A alegria dos pássaros
Apenas me procure

Não procure em mim
A grandeza do mar
Apenas me procure

Não procure em mim
Coisas que não vai encontrar
Mas, por favor,
Me procure!

Má Antunes, 05/08/2011.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

HORIZONTE

Compôs um samba pra ela
na cadência das estrelas.

Pendurou paletó e chapéu
no gancho da lua crescente.

Sacudiu o pó da via Láctea.

Afofou nuvens
e deitou-se sob o véu da noite.

Adormeceu
esperando que o universo
conspirasse ao seu favor.

Má Antunes, 06/07/2011