quarta-feira, 27 de outubro de 2010

QUERIA


Queria tocar tua alma
Sentir teu calor em minha palma
Cheirar o teu corpo com calma

Queria beijar tua boca
Amar você feito louca
Gritar teu nome até ficar rouca

Queria olhar teu semblante
Queria ser tua amante
Te ter em meus braços só um instante

Queria me entregar toda nua
Dançar com você sob a lua
Queria somente ser tua

Queria te fazer um carinho
Levar você pro meu ninho
E te falar de amor bem baixinho

Queria te levar para o céu
Cobrir o teu corpo com mel
Guardar você como um troféu

Queria compartilhar o meu dia
Te aquecer numa noite tão fria
Preencher minha vida vazia

Queria encurtar a distância
Do coração tirar essa ânsia
Contigo voltar à infância

Queria, queria,
Queria você!

Má Antunes, 27/10/2010.


sábado, 23 de outubro de 2010

COMBUSTÃO


Voz no ouvido
eriçando a pele

Atrito intenso
de tegumentos suados
provocando faíscas

Odor másculo
de feromônios ativos
aguçando as narinas

Doce sabor de língua
em meus lábios

Linda visão
do teu contorno rude

Combinação perfeita
de cinco sentidos:
Pura combustão!
Explodo de prazer!

Má Antunes, 22/10/2010.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

FRUTO PROIBIDO


Mergulho nesse orifício
Sorvendo o néctar dos deuses

Repouso suave
Nesses gomos macios
Doces como a tâmara
Ardentes como a brasa
Perigosos como a morte

Mas morreria
Só para ir ao teu céu
E tocar com a ponta da língua
As estrelas do teu pálato

Beberia até a última gota
Do veneno que destilas
Mordendo esse fruto proibido
Que me conduz ao paraíso
Tirando-me do inferno
Da solidão que me angustia

E sugaria essa seiva
Extraindo do tronco
O mais puro látex
Na esperança
De selar teus lábios nos meus.

Má Antunes, 18/10/2010.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A ROSA


Era rosa
A rosa
Do meu bem querer

Tinha perfume de rosa
Era tão cheirosa!
A rosa
E me deu prazer

Tinha espinhos de rosa
Era valente!
A rosa
Mas não me fez sofrer

Mas era suave
E dengosa
A rosa
Que me fez viver

Má Antunes, 29/09/2010.

domingo, 3 de outubro de 2010

BULA



Os homens deveriam ter bula
Pra sabermos sua composição
Pois é necessário saber
Se provocam intoxicação

Os homens deveriam ter bula
Pra sabermos sua utilidade
Pois se mal aplicado
Causam irritabilidade

Os homens deveriam ter bula
Pra sabermos as reações adversas
Pois muitas vezes provocam
Emoções tão controversas

Os homens deveriam ter bula
Pra sabermos o modo de usar
Pois seu consumo excessivo
Pode até nos matar

Ministério da saúde adverte
Use com moderação
Pois caso contrário
Pode ter grande decepção

Má Antunes, 01/10/2010.

MORTE E VIDA


Morro a cada dia
Morro de saudades
Morro de amor
Morro de raiva
Morro de rir

Mas também vivo
Vivo esperando
Vivo sonhando
Vivo cantando
Vivo escrevendo

Vivo morrendo
Morro de viver

Má Antunes, 01/10/2010

IN-VERSO


Calaste meus versos
Na boca-da-noite
Agora
Só me resta esperar
Pelo choro
Do nascer do sol

Má Antunes, 29/09/2010

AMPULHETA


Cai o tempo
Feito grãos de areia
Escorrendo a vida
Pelos vãos dos dedos
E leva consigo
Minha juventude
Deixando em mim
Fragmentos de memória
Partículas de alegria
E cicatrizes de dor

Cai o tempo
Sem piedade
Escrevendo em meu rosto
Com linhas de expressão
Minha história sofrida
Arqueando meu corpo
Com o peso dos anos

Cai o tempo
E quando cair
O último grão de areia
Virarei essa ampulheta...

Má Antunes, 27/09/2010.

ANOITECER


Está ficando tarde
O amor anoitece
Em escuridão de lua nova
As estrelas
Já não briham mais
São estrelas cadentes
Levando em seu rastro
Sentimentos adormecidos.

Má Antunes, 24/09/2010.

CLICK


Registra num click em quadrantes perfeitos
Encantamentos ocultos em poses passivas
Natureza ou nas ruas busca em efeitos
Almas perdidas de auras tão vivas

Talentoso guerreiro de câmera e flash
Olhos de lince em presas hostis
Silencioso arqueiro que lento se mexe
Oprimindo as feras em movimentos sutis

Alquimia perfeita de sombra e de luz
Riqueza de imagens que capta em ação
És poeta das formas que a tudo traduz
Sensível retrato de pura emoção

Má Antunes, 22/09/2010.

OLHAR


(Para Renato Soares – fotógrafo e documentarista)

Tens um olhar
Que vê a beleza
Que outros olhos
Não conseguem captar

Num piscar de olhos
Pára o vôo do pássaro
Congela o movimento das águas
Suspende a queda da folha
Amansa as feras

Faz nascer luz
No choro da criança
Eterniza a beleza da juventude
Registra o suspiro de saudade
Expresso nos ossos arqueados
Da terceira idade

Faz viva
A natureza morta
Tira a rotina do cotidiano
Traz o passado de volta a vida
E do presente faz futuro

Vê a vida por cima do muro
Vê a dor, o desespero, o grito
Vê a luta, o protesto, o rito
Vê a alegria, o sorriso, a vitória
Registra tudo na memória
Na memória do olhar

Má Antunes, 13/09/2010.

SE EU MORRESSE HOJE


Se eu morresse hoje
Eu morreria feliz
Fiz muita besteira na vida
Mas fiz tudo aquilo que eu quis

Fui contadora, Terapeuta
Escritora e até atriz
Fiz muita coisa na vida
Mas só não fui meretriz

Conheci muitos lugares
Muitas viagens eu fiz
Só levaria o lamento
De não ter conhecido Paris

Meus credores odiariam
Me caçariam qual perdiz
Já os meu devedores
Pulariam igual chafariz

Inimigos deixaria contente
Mas meus amigos infeliz
Mas se eu morresse hoje
Eu morreria feliz

Má Antunes, 11/09/2010.

HERANÇAS QUE MEU PAI DE MEIXOU


Teve infância pobre
Ia pra escola descalço
Mas aprendeu como um nobre
Não tinha lápis nem papel
Mas tinha força de vontade

Em um único ano
Duas séries ele fundiu
Chegou a passar fome
Mas mesmo assim,
Não perdeu a honestidade

Os anos se passaram
O ensino concluiu
Se formou profissional
Aproveitando
Uma só oportunidade

Conquistou seu grande amor
Família constituiu
Adquiriu pequenos bens
Até se achava rico
Mas sem perder a humildade

Foi grande pai, trabalhador
Um nome construiu
Foi poeta e escritor
Mas nunca vi meu pai
Cometer uma maldade

Algumas coisas
Medeixou quando partiu
Mas as virtudes
Meus bens mais valiosos
Guardo em cofre de verdade

E pelo dom de escrever
Hoje sou só felicidade

Má Antunes, 10/09/2010.

PÉ DE AMORA


Vai dizê pra sua mãe
Que nóis vai coiê amora
Enquanto ela prepara o tacho
Bem juntinho nóis namora

Pé de amora fica longe
Vai demorá pra i e vortá
Avisa pra sua mãe
Que bem tarde vai chegá

E pra gente ganhá tempo
Nóis namora no paiol
Lá nóis pode se deitá
E assistí o por do sol

No vermeio da tua boca
Tem o doce da amora
Vô comê ela todinha
Vem agora sem demora

As amora tava boa
Comemo tudo no caminho
Num sobrô pra fazê doce
Num sobrô nem um tantinho

Nóis num vimo o pôr do sol
Quase que perdemo a hora
E essa marca no pescoço
Ocê diz que foi d’amora

Má Antunes, 10/09/2010.

AÇOITE


O couro corta a carne em plena noite
Qual cruz de Cristo, pele urge em cravo
Carmim, escorre o sangue, arde açoite
Em costas negras presa em tronco bravo

Açoite fere o corpo, dói na alma
Alma que só a morte faz liberta
Duras mãos em calos mostra a palma
De vida tão sofrida e morte certa

Prole em em choro de seus braços furtam
P’ro mercado ofertar qual peça rara
Por alforria bravos guerreiros lutam
Batalha em vão perdida em pau-de-arara

Do peito o leite filho branco alimenta
Pra força bruta do negro sorver na fonte
No corpo entregue em brasas o senhor deleita
Em quartos brancos ou prata relvas dos montes

Por que tão triste sina na vida do negro?
Carma de vida passada que consigo traz?
Quilombo, ventre livre ou bom emprego
Apenas rélis humano em busca de Paz

Má Atunes, 08/09/2010.

UM AMOR QUE SE VAI


(Para minha grande amiga Marly Lemos que perdeu seu grande companheiro)

Se a vida nos leva
Um amor tão intenso
O que resta de nós?
Dor, choro, lamento

Resta apenas metade
De uma alma sem vida
Coração solitário
Aliança partida

Resta apenas supor
Reviver outra vida
Reencontrar este amor
Numa ilha perdida

Resta apenas saudade
Lembranças, memórias
Resta apenas metade
De uma linda história

Má Antunes, 03/09/2010.

MENSAGENS AO MAR


Atiro mensagens
Em garrafas de vinho
Neste mar tão sozinho

Pra onde vão? Não sei
Buscar outros montes
Novos horizontes

Quem sabe novos amores
Uma nova vida
Numa ilha perdida

Quem sabe eu encontre
Quem leia meus versos
Aqui tão dispersos

Atiro mensagens
Com histórias, mistérios
De finais tão sérios

Lá se vão mar à dentro
Minhas histórias, não de glórias
São apenas memórias

De um alguém solitário
Que tem apenas o mar
Com quem conversar
Má Antunes, 02/09/2010.

FÊNIX


Pungente, desfaço até a última cinza
De um louco amor em brasas ardentes
Em pó me transformo, corpo e mente
No calor desse fogo atroz que me finda

Num sopro renasço pronta pro jogo
Qual fênix, diva, em plumas altivas
Ave voraz, intuitiva
Anjo do inferno, pássaro de fogo

Se os ventos me espalham, partículas quentes
Perdida no brilho das estrelas da noite
Ruflo minhas asas, meu aço, açoite
Buscando outro amor, parto contente

Má Antunes, 02/09/2010.

UM FIO DE CABELO


          Apenas um fio de cabelo. Foi o que me restou daquele nosso último encontro.
         Guardo em minhas lembranças tua cabeça em meu colo, tua angústia em minh’alma, e eu a cantar cantigas de roda com o intento de assombrar os seus medos.
         Exausto de tanto chorar você adormeceu. Eu, apenas te olhava e cantava. Embalava teu sono deslizando mina mão em teus cabelos. Cabelos onde o tempo insistia em se revelar.
         Chegou sem nada dizer, sem nada pedir, sem nada querer. Mas levou meus sonhos, minhas esperanças e me deixou apenas saudades.
         Num lapso de tempo você se foi, contente, sem me dizer que seria pra sempre. De ti sobrou-me apenas uma imagem na memória de uma lágrima vertendo em teus olhos num choro de apelo. E em minhas mãos apenas um fio de cabelo.

       Má Antunes, 01/09/2010.

O TEATRO DA VIDA


          A arte imita a vida. Ou a vida imita a arte? Quem imita quem?
         Muitas vezes não sabemos distinguir os limites do palco. Esse imenso palco de bilhões de quilômetros quadrados sedia os mais diversos gêneros das artes cênicas: o drama, a comédia, o romance, o terror, o suspense, o protesto. Palco onde simultaneamente a alegria de um é a tristeza do outro; a condenação de um é a justiça do outro; a riqueza de um é a pobreza de muitos.
         Palco que também é circo, pois nele se apresentam malabaristas, equilibristas, engolidores de fogo, de espada, de sapos, e milhões de palhaços. Circo onde somos domadores e domados. Onde ilusionistas fazem surgir e desaparecer coisas bem diante dos nossos olhos.
         O teatro da vida, por vezes, é um teatro de marionetes, onde não somos donos das nossas falas e nossas ações. Estamos presos pelas cordas das regras e convenções sociais, políticas e religiosas o tempo todo a delimitar nossos movimentos, nossos comportamentos, o que pode, o que não pode, o que é correto. Articulamos palavras e movimentos com o intuito de gerar resultados já esperados, pois o script já está escrito.
         Outras tantas vezes somos quem não somos. Somos quem queremos ser, vivemos a vida que desejamos viver, pois esse teatro da vida nos permite criar realidades fictícias. Realidades que satisfazem aos nossos anseios como não envelhecer, ter a aparência que quisermos, ter a formação que quisermos, ter o melhor emprego, mesmo quando estamos desempregados. Ser um super-herói.
         Somos atores e platéia, mesclados nessa dinâmica das encenações, misturando papéis, vivendo vários personagens, pois somos ao mesmo tempo pais e filhos, médicos e pacientes, professores e alunos, fornecedores e consumidores.
         Esse teatro também nos prega peças. Pega-nos de surpresa nas situações mais inusitadas, roubando nossas falas deixando-nos completamente mudos. Rouba também nossos planos, nossos sonhos, nossas fantasias. Sem a menor cerimônia muda o gênero e o enredo da nossa vida.
         As provas são difíceis, ah, como são. Não é qualquer um que passa nos testes para fazer parte desse elenco.
         E tudo isso dirigido por quem? Ele mesmo, o destino. Esse diretor que determina nossos papéis, quando entramos ou saímos de cena. É ele quem diz quem é o mocinho e quem é o vilão. Para alguns ele é o próprio vilão.
         O destino a nortear os movimentos no palco, a ditar as falas, a determinar o fim do primeiro ato vai compondo esse maravilhoso espetáculo, esse realit show, que quando chega ao fim apagam-se as luzes, fecham-se as cortinas, mas não ouvimos os aplausos.

      Má Antunes, 30/08/2010.


POEMA EM GEL


Compõe em meu corpo
Adocicados poemas
Com salivas, vivas, lascivas,
Puro mel, geléia real,
Num gesto quase fatal,
Extraindo-me o ar,
Faz meu corpo arrepiar,

Tatua minha pele
Feito meu dono
Marcando seu rebanho,
Mesmo sendo um estranho
Que encontrei a poucas horas
A ti me entrego agora

Não termine esse poema
Me pinte com essa tinta
Enquanto a noite não finda
Não escreva fim, escreva ainda
Me cubra de reticências
De aspas, referências

Virei a página, meu estranho
Em minha pele a tinta secando
Meu corpo por sua língua chamando
Pra ser mais uma vez
Seu bloco de anotações
Onde você não escreve fim
Mas quem sabe, talvez.

Má Antunes, 31/05/2010.

PASSARINHO


Numa noite de lua cheia
Passarinho na janela pousou
E qual ave que gorjeia
Noite inteira pra mim cantou

Passarinho tem olho azul
Azul da cor do mar
Os cabelos cor de mel
E um sorriso invulgar

Cantou poema de Florbela
Com uma voz de Montenegro
Em sua pose tão singela
Parecia um Deus Grego

Feito canto de sereia
Fina voz me encantou
Mas depois de noite e meia
Pra bem longe ele voou.

Má Antunes, 29/05/2010.

SILÊNCIO


Som que tudo expressa
Sem nada dizer
Abrange o universo
Contido no vazio
Vazio das palavras
Vazio das expressões
Lacuna que permite
A existência de todos os sons
Linguagem absoluta
Pois há vários idiomas
Mas um único silêncio

Silêncio em chinês é silêncio
Silêncio em alemão é silêncio
Silêncio em russo é silêncio

E tudo diz
Expressa a raiva, a dor
Silêncio expressa o amor

É latente, é manifestado
É universal, globalizado

Silêncio está na voz, no pensamento
Na idéia, no sentimento

É a arma que fere, que mata
Silêncio é o elo que reata

No silêncio a mente decanta
O silêncio a todos encanta


Má Antunes, 30/08/2010.

A DESCOBERTA DO FOGO


         Ha quem diga de o fogo foi descoberto de forma acidental. Que esfregando-se uma pedra na outra produziu-se o fogo. Bom, pelo menos assim diz a história, ou melhor, a pré-história. O fogo teria sido descoberto para satisfazer uma necessidade básica do ser humano. Bem básica! Mas meus amigos, essa pré-história foi um pouco mal contada.
         Tudo aconteceu há muitos anos atrás (e bota anos nisso). Foi no período Paleolítico, numa tarde fria de outono, que um exemplar macho da raça homos erectus andava pela floresta à caça de seu jantar, quando de repente avistou uma bela fêmea, também da mesma raça. Ela com seu modelito meia-estação de pele de javali, colar e brincos de dente de onça, bolsa e sapato de pele de jacaré – última moda em Paris – desfilava graciosamente entre as presas (concorrência desleal essa!). Ele não teve dúvidas de que seria essa a caça a ser perseguida.
         No reino animal dessa espécie é mais comum a fêmea procurar atrair a atenção do macho. Mas como toda regra tem sua exceção, ele, macho, subiu na primeira árvore que encontrou e começou a bater no peito urrando seu grito másculo para atrair a atenção dela. Ela dá uma olhada de canto de olho e lança uma piscadinha. Pronto, este era o sinal de que haveria uma possibilidade.
         A tarde ia caindo e os ventos de outono a soprar os braços delicados da fêmea que começava a se encolher.
         Desde aquela época os machos quando se apaixonavam ficavam bobos. Então, ele começou a saltitar de um lado para outro na frente dela, balançando os braços e grunhindo.
         Desde aquela época as fêmeas também se derretiam por qualquer bobeira de macho, e ela lhe sorri agarrando seus braços já cianóticos mostrando a necessidade e intenção de ser aquecida.
         Ele se aproxima. Ambos se olham e se cheiram. Ela dá uma jogadinha no cabelo, abre sua bolsinha de couro de jacaré, tira um cigarro, olha para ele levando o cigarro bem próximo de sua boca e pergunta:
- Tem fogo?
Má Antunes, 21/08/2010.