sábado, 29 de junho de 2013

PROGNÓSTICO


Doutor, não me diga
Quanto tempo
Ainda tenho de vida
O pouco que tive
Já foi muito sofrida
Sei que não vim
Só com passagem de ida
A volta é certeira
Cedo ou tarde
Tenho que achar a saída

E o que vai me levar
Não é essa ferida
Vai ser a maldita
Paixão não retribuída
Essa sim
Dói feito mordida
Me consome dia após dia
Apressando minha partida
E quando penso que passou
Aí vem a recaída
Não tem jeito, não tem cura
Faz de mim um suicida

Por isso, Doutor,
Por favor, não me diga
Quanto tempo
Ainda tenho de vida.


Má Antunes, 29/06/13

sexta-feira, 1 de março de 2013

CANOA


Tem dias que amanheço canoa
Vago sem rumo,
Navego à deriva
Fico à toa

Tem dias que amanheço canoa
Ora sou mar,
Ora sou rio
Ora lagoa

Tem dias que amanheço canoa
Buscando seu porto
E dos meus olhos
A tristeza me escoa

Tem dias que amanheço canoa
Abandonada no tempo
Esquecida ao vento
Vivo sob a garoa

Tem dias que amanheço canoa
Distraindo a paisagem
Atenta ao canto
Que o pássaro entoa

Tem dias que amanheço canoa
Chamando seu nome
Ouço apenas meu grito
Que perdido ecoa

Tem dias que amanheço canoa
Sigo em frente
Deixo a via pra trás
Por mais que me doa

Má Antunes, 01/03/2013



domingo, 11 de novembro de 2012

SAÍDA




Ele só queria
A liberdade do vento
Subir no mais alto do céu
E poder encontrar um alento

Ele só queria
Poder esquecer sua dor
Jogar pra longe a miséria
Seja pra onde for

Ele só queria
Ver o mundo de cima
Ver a saída do labirinto
Pra fome achar uma rima

Ele só queria
Poder ver um futuro
Descobrir novos caminhos
Ver a vida de cima do muro

Ele só queria
Poder um dia sonhar
Poder viver uma infância
Ter os pulmões cheios de ar

Má Antunes, 11/11/2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

SAUDADE



Lágrimas vertem
Do falso gozo
Por espaços mal preenchidos
De não sentir tua energia

Lembrar você
Na ponta do meu dedo
Aguça a saudade que em meu peito
Jorra como sêmen
E fertiliza a dor de não tê-lo
Comprimindo minha pele

Má Antunes, 07/10/2012

domingo, 26 de agosto de 2012

AUTOBIOGRAFIA



No início
Eu não era nada

E quando um dia
Achei que eu fosse tudo
Descobri
Que eu não era
Simplesmente
Nada mais
Do que
Ninguém

Má Antunes, 26/08/2012

OBLIVION



Este poema é uma homenagem e uma tradução em palavras da musica de Astor Piazzola cujo título procurei manter



Saiu pelo mundo
Dançando
Ao som da sua tristeza

As lágrimas
Caiam sobre a partitura
Compondo
Os próximos acordes

A cada nota
Uma dor
A cada nota
Uma angústia
A cada nota
Uma mágoa

Mas seu choro era silencioso
De uma alma trancada
No fundo de um baú
Simplesmente oblivion
Simplesmente, esquecida

Má Antunes, 26/08/2012


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

CHUVA DE INVERNO


          Parecia que ia ser uma segunda-feira como outra qualquer. Um dia ensolarado e seco de inverno. Temperatura um pouco alta para a estação. A agenda cheia fez a manhã passar sem eu perceber. Pausa para o almoço que saco vazio não para em pé.
         Como todos os dias coloquei o fone no ouvido, minha rádio preferida de sempre, música nacional, óculos escuros e fui para o restaurante de costume. Mesmo restaurante, mesma comida. Tudo seria como de costume se algo não tivesse mudado essa rotina.
         Chegando ao restaurante, assim que coloquei o pé na porta não pude deixar de perceber. Bem de frente para a porta, mal dava para enxergar. Com seus não mais do que dois anos, olhinhos de jabuticaba, bochechas rechonchudas e rosadas e cabelinho curto e cacheado. Nossos olhares se cruzaram de imediato. Fui seguindo em direção ao fundo do restaurante onde são colocados os rechôs com pratos quentes e frios e ela foi me acompanhando com o olhar até onde seu pescocinho conseguia aguentar.
         Servi-me na sequência de costume: primeiro a salada e depois os pratos quentes, e sem perceber acabei me sentando ao lado dela, como se uma energia tivesse me atraído até lá. Ela me sorriu e eu, correspondi. Comecei a comer e sem perceber toda minha pressa naquele momento tinha me abandonado. Comi mais devagar do que de costume. Saboreei cada pedacinho da minha comida. E ela, continuava a me olhar.
         Arrisquei uma conversa:
         - Tá gostoso esse papá?
Não sei por que temos essa mania estúpida de falar com crianças como se fossem uns bobos, pois nós é que parecemos bobos com esse diálogo infantil. Mas ela nada respondeu, apenas me sorriu. Um sorriso puro, ingênuo, daqueles que vem do fundo da alma. E me ofereceu sua batata frita.
- Não, obrigada! – respondi tentando corresponder o mesmo sorriso. E apesar de não ter a mesma pureza e a mesma ingenuidade, senti que meu sorriso também surgiu do fundo da minha alma. Alma que naquele momento estava mais leve.
Pela primeira vez depois de muito tempo consegui almoçar sem pensar em problemas, em contas para pagar, em expectativas futuras. Foi como se o mundo parasse naquele momento para o almoço.
Ela pegava uma batata frita, colocava na boca, mastigava e sorria. E eu, colocava um bocado de comida na boca, mastigava e também sorria. Foi uma conversa intensa sem nada dizermos uma para a outra. Um diálogo profundo de conversa de almas. Um momento terno. Um oásis no meu deserto de conflitos, dúvidas, angústias, frustrações e expectativas.
Terminada sua refeição, seu pai a carregou no colo e se dirigiu ao caixa que ficava bem na minha frente. Ela olhou para mim sorriu e acenou me dizendo “tchau”. Eu sorri e acenei também. Mas não senti neste momento um “adeus”, mas sim um “até breve”.
Esta teria sido uma segunda-feira como outra qualquer, se eu não tivesse almoçado ao lado de um anjo. Aquele sorriso fez chover na estiagem dos meus dias.

Má Antunes, 20/08/2012.