terça-feira, 29 de março de 2011

SABORES


Tua ausência
Tange a maldade
Que atiça meu paladar

Saudade
Tempera tua carne
Saboreio,
Gosto picante
De estrelas cadentes
Salpicando em meu colo
Espinhos ferinos
Correndo em minha pele
Ardente, quente,
Cortante

No sal do teu corpo
Salivo,
Feito loba no cio

Da ausência, o fel
Apago,
Com beijos salgados
Rejeito esse amargo
Degustando teu céu

O acre da partida,
Mato,
Com doce de festa
Doce do gozo
No doce sabor das palavras
Aquelas que você não diz
Quando tua boca silente
Se cala na minha

Na mistura de gostos
Me farto
Cometo
O pecado da gula

Má Antunes, 11/03/2011

terça-feira, 1 de março de 2011

O ÚLTIMO "KUARUP"

   Foto de Renato Soares



Em sonhos livres de amor pelo sertão
E nas mãos carregando um grande fardo
Uniram-se os três grandes irmãos
Villas Bôas: Orlando, Cláudio e Leonardo

No desbravo de territórios em branco
Marcados pelo mapa do Brasil
Marcharam para o oeste em firme bando
Bravos guerreiros em ato tão servil

Através da Fundação Brasil Central
Que Expedição Roncador-Xingu se fez
Qual criou o Governo Federal
Em 1943

Um quartenário durou essa história
Que só Rondon foi capaz de tal façanha
Contou Darcy Ribeiro em suas memórias
“Vidas belas jamais se viu tamanha!”

Em ousadas aventuras se lançaram
Por matas e campos indevassados
Pelos rios e em aldeias se embrenharam
A procura de índios intocados

Em 2002, no início do verão
Partiu o último deixando seu legado
Aos índios: respeito, amor e preservação
Herança de Orlando, Cláudio e Leonardo

No Alto Xingu, em 2003, tribos infantes
Os “caraíbas” receberam em honraria
Índios vindos de áreas tão distantes
Pra cerimônia sem a qual não ficaria

E na aldeia Yawalapiti de reuniram
Pr’o “Ultimo Kuarup” em celebração
Num ritual para aqueles que partiram
Deixando ao mundo esta tão grande lição

Poema baseado e inspirado no texto “A Marcha para o Oeste” do fotógrafo e documentarista Renato Soares e composto em homenagem aos irmãos Villas Bôas e aos cinqüenta anos da criação do Parque Indígena do Xingu.

Má Antunes, 23/02/2011.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

ANJOS E DEMÔNIOS


Teu amor é fálico
Corta minhas entranhas
Aguça minhas façanhas
Me enche toda de manha

Dissimulado você me possui
Escorregas no meu corpo ócio
Me afogas em teus lábios ávidos
Embriago em teus beijos sóbrios

Deixo impresso em lençóis
Minha porção meretriz
Em tua boca gosto de anis
No teu cerne vou até a raiz

E você por um triz
Declamas gemidos impudico
Me ofertas carinhos fanicos
Impõe prazeres demônicos

Por teu desejo
Passo minha língua
Deixando tua carne a mingua
Percorrendo teu corpo lânguido
Provando teu néctar fluido

E noite inteira
Brinco nesse leva e traz
Usurpando tua energia voraz
Abrindo minha alma fugaz
Deleitando em tua aura sagaz

Pois sou teu anjo
E você meu satanás

Má Antunes, 27/02/2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O TEMPO E O ESPAÇO


Todos os dias, quando eu caminhava pelo parque, via um homem sentado no banco do jardim. O corpo arqueado pelo peso das responsabilidades que a vida lhe trouxe e a pele amarelada pelo tempo. O semblante, cansado de tantas desilusões, e os cabelos alvejados de preocupações.
Girava em torno dele como a terra gira em torno do sol.
Um olhar distante fitava um futuro de curto alcance.
Através das linhas que o tempo desenhou em seu rosto, lia suas histórias: seus sucessos, seus fracassos, suas glórias, seu cansaço.
Quão forte era aquele banco para suportar tanta bagagem!
Me admirava ver como podia um simples banco de madeira carregar uma vida inteira. E tão pequeno o espaço a abrigar a imensidão do tempo.
         Há dias vejo o banco vazio. O futuro agora ecoa no vácuo de uma sentença ditada à revelia.
Fico a me perguntar: Será que ele foi feliz para sempre? Para onde foram tantas histórias?
Talvez para o mesmo lugar para aonde vão nossos pensamentos...

Má Antunes, 04/02/2011.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

HAITI

    Foto de Sergio Ranalli


Um fino biscoito de barro
Regado com leite do peito
Na mente a certeza da morte
Revela um futuro perfeito

O sismo da vida arde no ventre
Destino insano rompe a cancela
O choro débil da existência pueril
Ecoa no fundo vazio da panela

O sono analgesia, anestesia,
O torpor da escassez extasia
E a polidez generosa da noite
Traz no sonho infame alegria

Na aridez de um estio pungente
De ignóbeis conveniências mortais
Nem esperanças, nem caridade
E nem o ego brotam jamais

Cai a noite, barriga dói
Faz sofrida a vida de guri
No amanhã um desígnio incerto,
Mas no rosto, a fome sorri...

Má Antunes, 24/01/2011.

domingo, 16 de janeiro de 2011

OLHOS NOS OLHOS

Pelas janelas da sua alma
Vejo um mundo insano
Será miragem? Ou mero engano?
Um mundo novo, puro reverso
Onde tudo é plano, poema sem verso

Um mundo perverso
Onde não faço planos, apenas penso
Invento, recrio, somente espio
Um mundo no avesso, de puro estio
Sem natal, sem moral, sem golpe fatal
Onde a razão manda, mas a emoção
Não obedece, e dessa guerra
O mundo padece

E tudo perece
Desce
.
..
....
Como uma teia
que a vida tece

Um universo sem tempo
De quero e não quero
Em que a loucura é sã
Onde a saudade não tem alento
E o passado mora no amanhã

Em seu mundo
Sem sonhos, sem fantasias
Nada espero, sou só alegria
Pois nele sou sua dona e seu capacho
Nesse mundo
me perco [me acho]

Má Antunes, 05/01/2011.


sábado, 8 de janeiro de 2011

ESTA NOITE



Onde está você
que não aqui
dentro de mim?
Arranhando minhas paredes
Pulsando meu sangue

Minha pele
seca
pela ausência
do teu suor
E a falta do teu sal
deixa minha vida
insonsa
Minha cabeça
fica zonza

Sem tua boca
não respiro
só suspiro

Sem você em meu peito
Sem teu calor em meu leito
Eu piro

Quero voar nas tuas asas
e contigo
ver as estrelas

Quero me acalmar
com a doçura
do mel dos teus lábios

Quero você
Agora!
Para ser o meu porto
Correndo em meu corpo
sem demora

Sim, te quero.
Por isso,
esta noite,
eu te espero!

Má Antunes, 22/12/2010.