segunda-feira, 2 de maio de 2011

ESQUINAS DA VIDA

Em cada esquina da vida
Há um destino de tocaia
Pronto pra nos surpreender
Passar um “rabo-de-arraia”

Em cada canto uma chacina
Aniquilando nossos sonhos
Nos trazendo à realidade
Por pesadelos tão medonhos

Em cada olhar um espanto
Um desejo, decepção
Uma vontade, uma alegria,
Uma tortura, uma ilusão

Em cada curva existe um jogo
Uma verdade que rebate
Como fosse um tabuleiro
Nos colocando em cheque-mate

Em cada esquina da vida
Briga o quero e o não dever
Disputa o anjo e o demônio
Em guerra fria de poder

Má Antunes, 27/04/2011

domingo, 1 de maio de 2011

O ENCONTRO


        Laura estava navegando na internet, em um site de relacionamentos, quando de repente vê um sinal vermelho no canto esquerdo da tela: era um pedido de adição de amigo. Antes de dar o aceite ela entra no perfil para conferir as condições. Ricardo, 44 anos, com uma foto de um homem lindo. “É muita esmola”, pensou ela, mas pagou para ver, aceitou-o como amigo em seu perfil.
         Não tardou para chegar uma mensagem dele: “seja bem vinda, é sempre muito bom fazer novos amigos”.
         Ela retribuiu carinhosamente o recado sinalizando um tímido interesse em conhecê-lo melhor.
         Assim que teve acesso ao perfil dele tratou de vasculhar tudo. Mas as informações eram breves e não existiam mais fotos no mural a não ser a foto do perfil, o que aguçava a sua curiosidade em saber mais sobre ele. Porém, resistiu ao início de uma inquisição para não parecer que estava se oferecendo.
         O tempo foi passando sem nenhuma outra manifestação até que um dia, quando ela navegava on-line pelo site, sua atenção é despertada por um rápido barulho e uma caixa de texto que se abriu no canto direito da tela.
         - Oi – iniciava Ricardo num bate-papo.
         - Oi – respondeu ela contendo sua ansiedade.
         - Tudo bem com você? – continuou ele abrindo o precedente para uma conversa que se estendeu quase noite à dentro.
         Aquele velho discurso: o que você faz? Onde você mora? O que gosta de fazer? Blá, blá, blá, e as conversas foram se tornando freqüentes e cada vez mais íntimas.
         Conversaram por uns dois meses até que finalmente marcaram um encontro. Ricardo e Laura moravam em cidades diferentes, separados por uns bons quilômetros, o que dificultava o encontro.
         Ricardo conseguira uma hospedagem na casa de amigos que moravam na mesma cidade que Laura, proporcionando a oportunidade de finalmente se conhecerem pessoalmente.
         Laura tinha várias fotos em seu mural e isto permitiu a Ricardo marcar bem o seu rosto. Ela insistia para ele lhe enviar mais fotos, mas ele alegava que não gostava de ser fotografado, porém, insistia que sua foto do perfil refletia suas imagem atual.
         Marcaram o encontro com uma semana de antecedência para a agonia dela. Semana que demorou uma década para passar.
         Como ele chegaria à cidade na sexta-feira no final da tarde insistiu em buscá-la na saída do trabalho. Ela resistia, queria estar produzida para o primeiro encontro, mas ele a convenceu dizendo que queria conhecê-la o mais natural possível.
         Hum, natural? Naquele dia Laura foi trabalhar como se fosse para um baile de gala, despertando a curiosidade de todos. Porém, ela nada contou a ninguém, guardou tudo no mais absoluto segredo.
         Marcaram o encontro em um café que ficava em frente ao prédio onde ela trabalhava, do outro lado da avenida. Um lugar aberto e bem movimentado, garantindo assim uma certa segurança à Laura.
         Ela olhava as horas a cada cinco minutos e respirava fundo para dissipar a sua ansiedade. Quando o relógio apontou 18:00h suas mãos começaram a suar em bica e seu corpo era um tremor só. Retocou a maquiagem e saiu controlando os passos para não correr.
         Naquele dia parecia que o elevador resolveu fazer escalas em todos os andares. Desceria pelas escadas se não estivesse no 9º andar. Quando a porta do elevador se abriu seu coração disparou junto com o sinal de mensagem do seu celular: “já estou aqui te aguardando”, dizia Ricardo na mensagem.
         Ela tentava esconder seu nervosismo, mas tinha a impressão que todos no elevador notavam a sua alteração.
         Saiu do prédio e caminhou até o semáforo acionando o botão do sinal para pedestres. Mais uma eternidade até que o sinal de pedestres ficasse verde para ela. “Não sei por que existe esse botão se demora o mesmo tempo que demoraria se não tivesse sido apertado”, pensava ela enquanto olhava para dentro do café na tentativa de avistar Ricardo.
         De repente, o som de uma longa buzina acompanhado de uma freada seca e o baque que joga Laura a metros de altura fazendo-a cair atrás do carro, batendo com a cabeça no chão. O motorista saiu desesperado para prestar socorro.
         - Oh, meu Deus! Eu não vi o sinal ficar vermelho! – gritava ele enquanto acionava o resgate.
         Não demorou a juntar gente que logo foi dispersado com a chegada do resgate.
         Após uma rápida avaliação dos paramédicos um triste diagnóstico: morte instantânea por traumatismo craniano.
         Laura morreu sem conhecer Ricardo.

         Má Antunes, 27/04/2011.

terça-feira, 5 de abril de 2011

MORRO DOCE

        Quando chega a hora, em que os pássaros se recolhem em coro festejando o entardecer, e a menina se esconde serena sob o seu manto, procuro os morros rijos para recostar meu cansaço.
         Visto a mortalha silenciosa que tange minh’alma e me conduz ao transe inimaginável onde mergulho impiedosa para mais uma viagem rumo às estrelas.
         Um cheiro de relva molhada, das florestas indesbravadas, penetram em minhas narinas trazendo a lembrança do cheiro de infância.
         Me aquieto e sinto o fluir camlo e lento dos rios correndo para o mar dos meus desejos.
         O calor que brota da terra faz acender minha pele, chamuscando faíscas de sedução, explodindo em fogos de artifício.
         E como loba no cio, corro para o alto dessa montanha, uivando noite à dentro, implorando à lua que me agracie com mais cinco minutos de sua luz que banha o meu prazer.
         É assim, todas as noites em que meu corpo repousa em teus braços.

         Má Antunes, 04/04/2011.

sábado, 2 de abril de 2011

MAL-ME-QUER


Que adianta ter quem não me quer?
Que tens a mim, mas não a alma minha
Que me deixa aqui sempre tão sozinha
Quer apenas meu corpo de mulher

Tirei no bem-me-quer esse querer
Que só um mal-me-quer ele continha
Ditando uma sentença tão mesquinha
Condenando a um eterno sofrer

Procuro em vão por uma flor que diga
Que o futuro possa modificar
Cujas pétalas encontre o meu amor

Cada pétala eu faço uma figa
Pra mudar esse jogo de azar
Livrando a mim de tão imensa dor

Má Antunes, 30/03/2011.

terça-feira, 29 de março de 2011

DESENCONTROS


Não sei se cheguei tarde
Ou se foi cedo demais
Pra oferecer uma canção
Lançar meus jogos mortais

Sob o meu corpo
Só uma sombra
E o teu cheiro
No meu jardim

Em pratos rasos
As tuas sobras
No coração
A dor que dói sem fim

Entalhei na minha pele
Sua expressão indiferente
Para poder me convencer
Que para sempre será ausente

Fecho meus olhos
Apago sonhos
Calo a angústia
Do meu viver

Tranco o silêncio
Versos componho
Cuspo palavras
Pra não sofrer

Já troquei as fechaduras
Pra ninguém mais poder entrar
Já me vesti com armaduras
Para poder te esperar

Embalo a dor
Com o seu canto
Na esperança
De adormecer
Curo a saudade
Com o meu pranto
Sufoco o amor
No meu louco querer

Não sei se cheguei tarde
Pra declarar o meu amor
Vou esperar por mais um dia
Esperar até o sol se por

Má Antunes, 27/03/2011.

SABORES


Tua ausência
Tange a maldade
Que atiça meu paladar

Saudade
Tempera tua carne
Saboreio,
Gosto picante
De estrelas cadentes
Salpicando em meu colo
Espinhos ferinos
Correndo em minha pele
Ardente, quente,
Cortante

No sal do teu corpo
Salivo,
Feito loba no cio

Da ausência, o fel
Apago,
Com beijos salgados
Rejeito esse amargo
Degustando teu céu

O acre da partida,
Mato,
Com doce de festa
Doce do gozo
No doce sabor das palavras
Aquelas que você não diz
Quando tua boca silente
Se cala na minha

Na mistura de gostos
Me farto
Cometo
O pecado da gula

Má Antunes, 11/03/2011

terça-feira, 1 de março de 2011

O ÚLTIMO "KUARUP"

   Foto de Renato Soares



Em sonhos livres de amor pelo sertão
E nas mãos carregando um grande fardo
Uniram-se os três grandes irmãos
Villas Bôas: Orlando, Cláudio e Leonardo

No desbravo de territórios em branco
Marcados pelo mapa do Brasil
Marcharam para o oeste em firme bando
Bravos guerreiros em ato tão servil

Através da Fundação Brasil Central
Que Expedição Roncador-Xingu se fez
Qual criou o Governo Federal
Em 1943

Um quartenário durou essa história
Que só Rondon foi capaz de tal façanha
Contou Darcy Ribeiro em suas memórias
“Vidas belas jamais se viu tamanha!”

Em ousadas aventuras se lançaram
Por matas e campos indevassados
Pelos rios e em aldeias se embrenharam
A procura de índios intocados

Em 2002, no início do verão
Partiu o último deixando seu legado
Aos índios: respeito, amor e preservação
Herança de Orlando, Cláudio e Leonardo

No Alto Xingu, em 2003, tribos infantes
Os “caraíbas” receberam em honraria
Índios vindos de áreas tão distantes
Pra cerimônia sem a qual não ficaria

E na aldeia Yawalapiti de reuniram
Pr’o “Ultimo Kuarup” em celebração
Num ritual para aqueles que partiram
Deixando ao mundo esta tão grande lição

Poema baseado e inspirado no texto “A Marcha para o Oeste” do fotógrafo e documentarista Renato Soares e composto em homenagem aos irmãos Villas Bôas e aos cinqüenta anos da criação do Parque Indígena do Xingu.

Má Antunes, 23/02/2011.