domingo, 3 de outubro de 2010

A DESCOBERTA DO FOGO


         Ha quem diga de o fogo foi descoberto de forma acidental. Que esfregando-se uma pedra na outra produziu-se o fogo. Bom, pelo menos assim diz a história, ou melhor, a pré-história. O fogo teria sido descoberto para satisfazer uma necessidade básica do ser humano. Bem básica! Mas meus amigos, essa pré-história foi um pouco mal contada.
         Tudo aconteceu há muitos anos atrás (e bota anos nisso). Foi no período Paleolítico, numa tarde fria de outono, que um exemplar macho da raça homos erectus andava pela floresta à caça de seu jantar, quando de repente avistou uma bela fêmea, também da mesma raça. Ela com seu modelito meia-estação de pele de javali, colar e brincos de dente de onça, bolsa e sapato de pele de jacaré – última moda em Paris – desfilava graciosamente entre as presas (concorrência desleal essa!). Ele não teve dúvidas de que seria essa a caça a ser perseguida.
         No reino animal dessa espécie é mais comum a fêmea procurar atrair a atenção do macho. Mas como toda regra tem sua exceção, ele, macho, subiu na primeira árvore que encontrou e começou a bater no peito urrando seu grito másculo para atrair a atenção dela. Ela dá uma olhada de canto de olho e lança uma piscadinha. Pronto, este era o sinal de que haveria uma possibilidade.
         A tarde ia caindo e os ventos de outono a soprar os braços delicados da fêmea que começava a se encolher.
         Desde aquela época os machos quando se apaixonavam ficavam bobos. Então, ele começou a saltitar de um lado para outro na frente dela, balançando os braços e grunhindo.
         Desde aquela época as fêmeas também se derretiam por qualquer bobeira de macho, e ela lhe sorri agarrando seus braços já cianóticos mostrando a necessidade e intenção de ser aquecida.
         Ele se aproxima. Ambos se olham e se cheiram. Ela dá uma jogadinha no cabelo, abre sua bolsinha de couro de jacaré, tira um cigarro, olha para ele levando o cigarro bem próximo de sua boca e pergunta:
- Tem fogo?
Má Antunes, 21/08/2010.

ATIRA-DOR


Uma lança afiada meus olhos acerta
De ti nada vejo, minh’alma liberta
Cega, tateio buscando carinho
Faço teu rumo o meu próprio caminho

Outra lança certeira fere-me as mãos
Que deixam tua mente e teu corpo sãos
De rubro, com sangue, tinjo tua face
E em teu semblante minha imagem desfaz-se

Com maestria acerta-me o peito
E meu coração, sempre alvo perfeito
Teus braços procuro, meu porto, meu cais
Encontro o vazio, as dores fatais

O último lance fere-me a alma
Tirando-me a vida, os sonhos, a calma
Sigo perdida em busca de cura
Insisto em meus dias a tua procura


Má Antunes, 11/08/2010.

ESSÊNCIA


Boa essência uma arvore se faz
Sombra e fruto dá benevolente
Frutos da semente que em terra jaz
Bondosa a saciar a toda gente

Lapidada muitas coisas se transforma
Qual depende a intenção do escultor
Reta ou curva, não importa qual a forma
Um instrumento tal madeira vai propor

Bem torneada um violino pode ser
Corpo e vara se une’m harmonia
Seus acordes belos sons oferecer
Lindos mantras compor em sinfonia

Reta e pontiaguda é espada
Fere e mata num golpe sem piedade
Mesmo tendo essência lapidada
É capaz de cometer essa maldade

Como árvore tal é o ser humano
Que em seu âmago possui boa essência
E pra não tornar-se arma por engano
Precisa cultivar benevolência

Má Antunes, 02/08/2010.

PAIXÃO NAS ALTURAS


         Planava no céu com suas plumas enegrecidas como a noite sem lua e sem estrelas. O olhar periférico procurava por uma presa fácil, imóvel pelo óbito.
         O odor fétido de matéria em decomposição lhe atraiu em direção aos morros. Mas durante sua trajetória foi surpreendido por uma linda visão que o fez postergar a hora da refeição.
         Será uma miragem? Um arco-íris de asas? Pensou ele, planando em volta dela ensaiando uma dança de acasalamento.
         Mas ela nem tomou conhecimento do flerte, continuou seu vôo distraidamente.
         Ele insistiu, fazendo as mais arriscadas acrobacias, mas ela continuou a ignorá-lo.
         Sabia ele que pertenciam a espécies diferentes. Sabia ele não ser digno de tão majestosa criatura. Mas mesmo assim, insistia numa conquista.
         E ela continuava a deslizar sobre o céu sem dar a mínima importância aos gracejos daquele macho exarcebado.
         Exausto de tantos malabarismos e indignado com a indiferença dela, recolheu-se a sua insignificância de lixeiro da natureza e buscou outros prazeres da carne.
         Foi assim, a história do urubu que se apaixonou por uma asa-delta.

Má Antunes, 09/07/2010.

PENETRAÇÃO


Muito ela resistiu àquele momento. Apenas um charme, fazendo-se de pudica para aguçar a ansiedade e o desejo dele. Fingiu não entender suas reais intenções deixando-se arrastar para a armadilha que ele ardilosamente preparou.
Um casebre à beira do lago numa bela noite de lua cheia. Nem mesmo os sapos e grilos, entretidos em suas sinfonias, testemunhariam o ato de perdição.
Ela abre a porta lentamente avistando apenas à silhueta dele desenhada pelos raios dos candelabros. Hipnotizada pelo olhar fulminante que ele lhe atira, ela desliza até a cama deixando cair as peças de roupa pelo caminho.
Extasiado pelo encanto de quem constata a beleza de seu corpo, ele a toca suavemente delineando cada traço de seu delicado contorno. É mais perfeita do que eu imaginava! Diz ele apenas com a expressão de seu rosto, enquanto sua boca procura os mamilos enrijecidos dela.
Carrega-a no colo e a posta suavemente sobre a cama para, enfim, a consumação do seu desejo. Abre as bem torneadas pernas dela e admira seus lábios carnudos e púrpuros. Desliza seu corpo sobre o dela percorrendo sua língua de sul a norte.
E sentindo finalmente a penetração ela urra num longo gemido enquanto o sangue escorre pelo punhal cravado em seu abdome.

Má Antunes, 06/07/2010.

APARÊNCIAS


Ele, sentado.Bigode e chapeu. Terno escuro lhe dava a imagem de soberania. Ou seria de tirania? Autoridade imposta por um título de Barão. Era respeitado. Não, era temido! Temido pelo poder que a riqueza lhe conferia.
Ela, em pé ao seu lado. Cabelos presos e vestido recatado. Imagem de santa. Fingia orgasmo e submissão. Mas não temia o Sr. seu marido, o Barão. Apenas fingia. E como fingia!
As crianças, uma ao lado, outra no colo. Temiam ao pai, amavam a mãe. Sinceramente.
Ele sério, ela sorria. Sorriso amarelo. Seria da foto?
É, as aparências às vezes enganam.

Má Antunes, 30/06/2010.

O MURO


         Foi deixado no orfanato logo que nasceu. A mãe morreu na dificuldade do parto. O pai, desconhecido. A idade avançada dos avós e o moralismo da cidade de interior impediram que ele crescesse no seio da família.
         Deram-lhe no hospital o nome de Renato (O Renascido), pois com muita dificuldade conseguiram trazê-lo de volta a vida. Mas a falta de oxigênio no cérebro provocou-lhe a paralisia dos membros inferiores. Assim que o menino teve condições de respirar sem a ajuda dos aparelhos, foi deixado por uma enfermeira na “Casa do Menino Jesus”, um abrigo para menores mantido pelas freiras de um convento da cidade.
         Deficiente e de pele escura, Renato sequer entrava na fila de espera para adoção. “Quem vai querer essa encrenca?”, murmuravam as freiras como se nem mesmo Deus pudesse ouvi-las. Então, Renato cresceu no cárcere do orfanato.
         Passava os dias em sua cadeira de rodas no jardim do orfanato, olhando perdidamente para um muro alto que não permitia ver o que se passava do outro lado. As freiras achavam que a paralisia cerebral tinha afetado também o seu raciocínio. Em razão disso pouco interagiam com ele e deixavam-no abandonado no jardim, de frente para o muro. Muro que separava Renato do mundo ao mesmo tempo o levava para mundos diversos, mundos da imaginação.
         Renato nunca saiu do orfanato. Tudo o que conhecia a respeito do mundo era através da televisão. Ele também tinha um amigo, Gabriel. Um amigo também deficiente, da visão. Um amigo que não via. Um amigo que ninguém via. Então, Renato passava os dias descrevendo para Gabriel o mundo que existia por trás do muro.
         - A cidade está sendo invadida por discos voadores vindos de outras galáxias – dizia Renato para seu amigo sem visão.
         - Agora estão chegando os dinossauros. São muitos! Vão destruir a cidade!
         Assim passava os dias, a relatar ao seu único companheiro como seria a suposta vida do outro lado do muro. Foi assim por muitos anos. Um dia sairia dali, acreditava Renato. Conheceria o real mundo que a enorme venda imposta diante de seus olhos não lhe permitia ver.
         Mas numa tarde fria de outono, forte garoa caiu sobre a cidade. As freiras, entretidas com seus afazeres, esqueceram Renato no jardim, debaixo da garoa. O resultado: uma terrível pneumonia o acometeu. E a precariedade intencional dos recursos do orfanato acabou provocando a morte do menino.
         E finalmente Renato pode atravessar o muro e conhecer os mistérios que se escondiam do outro lado.

         Má Antunes, 29/06/2010.